segunda-feira, 2 de junho de 2014

Texto no Cabide: Para vovô


Pedro, quando eu sentava na mesa de manhã cedo pra te acompanhar no café era simplesmente pra ver tua barba branca, alvinha feito espuma de leite, se sujar com o amarelado da banana cozida. Eu gostava de todo o seu ritual cotidiano de rezar antes de tomar o café e lavar as mãos e barba na bacia verde que ficava ao lado do filtro. Minha mãe já havia dito que não precisava fazer o sinal da cruz no rosto pra se proteger, mas eu olhava disfarçadamente pra você, pra ver sua mão flácida se benzendo e sua boca balbuciando palavras nunca decifradas por mim. Lembro com nitidez da sua imagem, do seu jaleco e do chapéu de couro, de você entrando pra casa quando o sol se punha, ajudado por um cajado de madeira.

Pouca coisa eu entendia e pouco entendo até hoje. Achava engraçado te ver cheirando uma pitada de fumo, com espirros em seqüência. Não sei bem se o fumo lhe fazia mal, mas eu gostava do cheirinho que ele deixava no jaleco marrom. Ele me fazia lembrar das histórias sobre lobisomens que você contava, você descrevia minuciosamente a cena. Recordo sobre as rezas a noite, as senhoras sambadeiras, as casas de farinha e o sinal da cruz livrador.


domingo, 1 de junho de 2014

Texto no cabide: Saber de sofrer

Lucas Alves

Quem sabe de ouvir dizer, não sabe de nada.
Talvez saberia se soubesse sentir e viver.
Saberia se soubesse conhecer...
entender,
ver,
sofrer...
Mas saber de ouvir falar, não garante o saber.
Às vezes até o próprio "ver" engana, a ponto de fazer acreditar simplesmente naquilo que os olhos puderam alcançar.
Ver com os olhos, garante o não saber de nada, ver com coração, que seria um tipo de sentir, te garante um mínimo de saber em saber o que tem por detrás da imensidão que te é permitida quando se aprende a conhecer. Conhecer, não de saber o nome e a rua onde mora, mas sim de sofrer quando abre a porta trancada no íntimo do outro.

Obra: Egon Schiele

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Novidades no Cabide: Marcador de páginas

Hoje parei os deveres e me debrucei em algo que há tempos queria fazer: Criar novos personagens para marcadores de páginas do Cabide de Biongo!



segunda-feira, 12 de maio de 2014

Texto no Cabide: Sobre Deus

Eu desci as escadas do sótão e encontrei Deus lá de pijama, sentado, tocando piano. Não sabia distinguir ao certo que música era, mas era Jazz, tenho quase certeza disso. Ele riu, finalizou a música, iniciou uma outra, olhou pra mim e sinalizou com a mão, pedindo que eu sentasse ali do lado. Sentei, não resisti, abracei, mais um vez ele riu e retribuiu o abraço e, ficamos por ali demasiadamente juntos, não havia espaço entre nós, era um abraço de verdade, a música continuava, agora conseguia identificar, era “Let it be”.



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Texto no cabide: O quarto

E diziam por aí, de boca em boca, que ele tinha entrado naquele quarto que ninguém antes entrou, e que havia vindo de lá quieto, aparentemente normal, mas cheio de mudanças. Tudo mudou, a forma de falar, o jeito como pensava, as expressões já não vinham em formas de palavras, elas sussurravam de forma fragilizada pelo olhar.

Ele tinha certeza do que tinha visto, e estava contente em ter sido o primeiro e único até então a descobrir o que existia dentro daquele quarto, ao mesmo tempo em que refletia sozinho com o medo, o medo de ter descoberto aquilo que levaria tempos a ser desvendado.

Já não importava mais as conversas em cada esquina da cidade, pouca importância era dada aos risos combinados de quem criticava a atitude inovadora. Ele sabia que teria que conviver com tal ignorância. Muita coisa tinha sido deixada naquele quarto, a impaciência, os apegos materiais, o choro, os preconceitos. Tudo havia se despencado como num descuido qualquer de deixar cair da mão o que restava, no entanto permanecia ainda o medo, apenas ele permaneceu, bem menor que antes, mas ainda permanece, permanecerá, como se fizesse parte do ser que ele era, ou como se fosse ele mesmo o próprio medo.

quinta-feira, 20 de março de 2014

Obra no cabide: Fotografias de Joel Sternfeld



Joel Sternfeld é um fotógrafo artístico conhecido por suas fotos de grande formato documentário dos Estados Unidos e por ter ajudado a estabelecer a fotografia em cor como um meio artístico respeitado. Ele tem muitas obras nas coleções permanentes do MOMA em Nova York eo Getty Center, em Los Angeles. Ele influenciou toda uma geração de fotógrafos de cores, incluindo Andreas Gursky, que tomam emprestado muitas técnicas e abordagens de Sternfeld.
Na tentativa por um entendimento no que diz respeito a poética do artista Sternfeld, se percebe algumas características, temas e abordagens que definem de algum modo a produção deste fotógrafo, sua intenção e seu modo singular que contribui para o campo da fotografia artística, para as artes visuais, como também para os demais fotógrafos e artistas que utilizam as obras de Joel Sternfeld como referência para produção na contemporaneidade. As fotografias de Sternfeld apresentam partes importantes de sua busca no registro da paisagem da socialização humana, interação e imaginação.
Em muitas das representações de paisagens e lugares que podem ser comumente registrados, Sternfeld sinaliza uma postura conceitual longe de uma simples representação da natureza. Seu campo não é nem bonito, nem sublime, nem pitoresco. E o aspecto plano oferecido em muitas das suas composições reverberam um vazio eloquente, bem como uma embarcação para um tema recorrente em seus trabalhos - os efeitos do consumo humano sobre o mundo natural. Sendo um dos principais expoentes da fotografia a cores, Sternfeld começou a inserir neste modo “novo” na década de 70, a aplicação de inovação tecnológica de inovação poética e estilo. O norte-americano atenta para ideia de que a paisagem, a cor, o retrato não poderiam mais ser uma realidade objetiva como nas fotografias de anos anteriores, desse modo ele aproveita a nova possibilidade para jogar, editar e enfatizar o elemento humano.

No seu ato de fotografar insere-se o caráter de imagens comuns, como se tivessem sido tiradas por um turista de passagem, após uma análise mais cuidadosa é que se pode talvez entender o processo e intenção do fotógrafo, que estão pautados na vontade de refletir sobre sua própria banalidade da vida cotidiana e sobre a mudança de perspectiva em uma sociedade onde os indivíduos são cada vez mais banais, incoerentes, inconsistentes, mas, aparentemente, isso nem sempre é óbvio para alguma anormalidade subjacente, uma nota discordante. Um fator constante em sua obra é a sua terra natal América, os seus habitantes e os rastros deixados por pessoas na paisagem. Com um sentimento sutil de ironia e uma sensação excepcional de cor, Sternfeld nos oferece uma imagem da vida cotidiana na América ao longo das últimas três décadas.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Texto no cabide: Equilíbrio


Ainda consigo me equilibrar com uma perna só. 

Ainda contigo a mim quis livrar como uma pena ao sol. 

Sem vento, nem tempo. 

Sem passo, nem arrastos que me levem para você ou para o alto.