E diziam por aí, de boca em boca, que ele tinha entrado
naquele quarto que ninguém antes entrou, e que havia vindo de lá quieto,
aparentemente normal, mas cheio de mudanças. Tudo mudou, a forma de falar, o
jeito como pensava, as expressões já não vinham em formas de palavras, elas
sussurravam de forma fragilizada pelo olhar.
Ele tinha certeza do que tinha visto, e estava
contente em ter sido o primeiro e único até então a
descobrir o que existia dentro daquele quarto, ao mesmo tempo em que refletia
sozinho com o medo, o medo de ter descoberto aquilo que levaria tempos a ser
desvendado.
Já não importava mais as conversas em cada esquina
da cidade, pouca importância era dada aos risos combinados de quem criticava a
atitude inovadora. Ele sabia que teria que conviver com tal ignorância. Muita
coisa tinha sido deixada naquele quarto, a impaciência, os apegos materiais, o
choro, os preconceitos. Tudo havia se despencado como num descuido qualquer de
deixar cair da mão o que restava, no entanto permanecia ainda o medo, apenas
ele permaneceu, bem menor que antes, mas ainda permanece, permanecerá, como se
fizesse parte do ser que ele era, ou como se fosse ele mesmo o próprio medo.