quinta-feira, 12 de junho de 2014

Texto no cabide: Micropoemas para o Inverno

Obra de Egon Schiele
 Abra aço

Pra que então
Em mim há braços
Se não forem para envolvê-los
em teus abraços?



Saudade

É tanto frio
Que congela a espinhela
Quando entra a saudade
Pela fresta da janela.


segunda-feira, 9 de junho de 2014

Novidade no cabide: Marcador de páginas

Mais marcadores de páginas foram colocados no forno essa semana.
Aqui estão algumas imagens.
cabidedebiongo@gmail.com

 

Até agora músicas e textos tem inspirado cada marcador. Alguns nomes da música brasileira tem embalado o lápis.

Cícero

Léo Fressato

Cassia Eller

Marcelo Jeneci


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Texto no Cabide: Para vovô


Pedro, quando eu sentava na mesa de manhã cedo pra te acompanhar no café era simplesmente pra ver tua barba branca, alvinha feito espuma de leite, se sujar com o amarelado da banana cozida. Eu gostava de todo o seu ritual cotidiano de rezar antes de tomar o café e lavar as mãos e barba na bacia verde que ficava ao lado do filtro. Minha mãe já havia dito que não precisava fazer o sinal da cruz no rosto pra se proteger, mas eu olhava disfarçadamente pra você, pra ver sua mão flácida se benzendo e sua boca balbuciando palavras nunca decifradas por mim. Lembro com nitidez da sua imagem, do seu jaleco e do chapéu de couro, de você entrando pra casa quando o sol se punha, ajudado por um cajado de madeira.

Pouca coisa eu entendia e pouco entendo até hoje. Achava engraçado te ver cheirando uma pitada de fumo, com espirros em seqüência. Não sei bem se o fumo lhe fazia mal, mas eu gostava do cheirinho que ele deixava no jaleco marrom. Ele me fazia lembrar das histórias sobre lobisomens que você contava, você descrevia minuciosamente a cena. Recordo sobre as rezas a noite, as senhoras sambadeiras, as casas de farinha e o sinal da cruz livrador.


domingo, 1 de junho de 2014

Texto no cabide: Saber de sofrer

Lucas Alves

Quem sabe de ouvir dizer, não sabe de nada.
Talvez saberia se soubesse sentir e viver.
Saberia se soubesse conhecer...
entender,
ver,
sofrer...
Mas saber de ouvir falar, não garante o saber.
Às vezes até o próprio "ver" engana, a ponto de fazer acreditar simplesmente naquilo que os olhos puderam alcançar.
Ver com os olhos, garante o não saber de nada, ver com coração, que seria um tipo de sentir, te garante um mínimo de saber em saber o que tem por detrás da imensidão que te é permitida quando se aprende a conhecer. Conhecer, não de saber o nome e a rua onde mora, mas sim de sofrer quando abre a porta trancada no íntimo do outro.

Obra: Egon Schiele

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Novidades no Cabide: Marcador de páginas

Hoje parei os deveres e me debrucei em algo que há tempos queria fazer: Criar novos personagens para marcadores de páginas do Cabide de Biongo!



segunda-feira, 12 de maio de 2014

Texto no Cabide: Sobre Deus

Eu desci as escadas do sótão e encontrei Deus lá de pijama, sentado, tocando piano. Não sabia distinguir ao certo que música era, mas era Jazz, tenho quase certeza disso. Ele riu, finalizou a música, iniciou uma outra, olhou pra mim e sinalizou com a mão, pedindo que eu sentasse ali do lado. Sentei, não resisti, abracei, mais um vez ele riu e retribuiu o abraço e, ficamos por ali demasiadamente juntos, não havia espaço entre nós, era um abraço de verdade, a música continuava, agora conseguia identificar, era “Let it be”.



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Texto no cabide: O quarto

E diziam por aí, de boca em boca, que ele tinha entrado naquele quarto que ninguém antes entrou, e que havia vindo de lá quieto, aparentemente normal, mas cheio de mudanças. Tudo mudou, a forma de falar, o jeito como pensava, as expressões já não vinham em formas de palavras, elas sussurravam de forma fragilizada pelo olhar.

Ele tinha certeza do que tinha visto, e estava contente em ter sido o primeiro e único até então a descobrir o que existia dentro daquele quarto, ao mesmo tempo em que refletia sozinho com o medo, o medo de ter descoberto aquilo que levaria tempos a ser desvendado.

Já não importava mais as conversas em cada esquina da cidade, pouca importância era dada aos risos combinados de quem criticava a atitude inovadora. Ele sabia que teria que conviver com tal ignorância. Muita coisa tinha sido deixada naquele quarto, a impaciência, os apegos materiais, o choro, os preconceitos. Tudo havia se despencado como num descuido qualquer de deixar cair da mão o que restava, no entanto permanecia ainda o medo, apenas ele permaneceu, bem menor que antes, mas ainda permanece, permanecerá, como se fizesse parte do ser que ele era, ou como se fosse ele mesmo o próprio medo.