terça-feira, 13 de março de 2018

Tamanha ignorância não me fez perceber de imediato que ali deitado aos meus pés estava um galgo. Ele parecia um tanto assustado ou preocupado. Não sei definir bem o que ele sentia. Eu, que sempre fui um pé de oliveira, parada aqui neste lugar, jamais havia visto um galgo tão de perto. Já passaram por mim tantos outros seres diferentes, mas nunca um galgo. Olhei pra pele, e percebi que brilhava feito estrelas cadentes.
Suas pernas longas, que correram muito pra chegar até aqui, permitiam que ele me envolvesse toda, no abraço mais sincero que já vi.Me encantei de cara, e queria que ele ficasse aqui por muito mais tempo. Não estava acostumada a ter algo tão próximo, tão vivo e tão quente.
O galgo que dormia como um urso em sono profundo se transformou em um belo homem. Eu não queria acreditar no que via. Era magia, só poderia ser. Ele continuou a dormir e alguns minutos depois foi acordado por um desses Senhores ricos que perguntava incessantemente: - Você viu um galgo passar por aqui?Naquele instante tudo fazia sentido pra mim. Supus presenciar ali uma fuga. Claro que fiquei mais quietinha ainda, não queria que aquele galgo, que tomou forma humana, saísse dali. Como boa oliveira, venerei seu sono, imaginei seus sonhos, e tentei espantar qualquer inseto que quisesse perturbar.
Na manhã seguinte, num cochilo por descuido, ele se foi, e agora espero o dia em que poderei encontrá-lo outra vez.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Texto no cabide: Pra te privar



Van Gogh - The Bedroom

Abro o guarda-roupa e tudo que consigo sentir é o cheiro de roupa esquecida. Os cabides não penduram mais nada, e um dos parafusos que prende a porta soltou há duas semanas. Eu não tenho tempo pra lidar com isso. Eu não quero ter tempo para isso.
Fiz um chá, me cobri com o edredom mais quente que tem. Faz frio ou tenho febre. Não importa, gosto das duas possibilidades.
Quero acordar mais cedo amanhã, pra me privar de ter almoço como primeira refeição.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Texto no Cabide: Lançarei rosas vermelhas

Um mar atravessa minha rua, minhas casas.
De um lado eu vejo os amores impenetráveis, do outro os amores incuráveis.
Nunca me jogo no mar por completo.
Sempre espero a conquista das ondas ou o balanço místico promovido pelo monstro das águas. 
Fecho a porta e espero que montanhas queiram fazer morada no corpo. 
É nessa hora que o rio cai olhos a baixo e eu apenas tento ouvir o som da água.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Texto no cabide: Zoé, uma cidade girassol



Quando avistei a cidade de Zoé, fiquei louco. A sensação era de descoberta, entusiasmo e afeto múltiplo por todo o corpo. De longe parecia ser um lugar incrível, o verde tomava todo aquele espaço rodeado de montanhas. Fiquei encantado com a plantação de girassóis na entrada da cidade. Já tinha ouvido falar sobre Zoé em um dos livros de Ítalo Calvino "As cidades invisíveis", mas não tinha conseguido perceber através dos escritos tamanha beleza daquela cidade.
Cheguei de barco, com uma mochila nas costas, um par de sapatos desgastados do tempo, me instalei em uma daquelas pousadas próximas de lindas estátuas de mulheres gordas feitas por uma artista da cidade. Era incrível ter como ponto de referência aquelas belíssimas esculturas a céu aberto. Me encantei por Zoé, estava perdidamente apaixonado pela calmaria que aquelas ruas me traziam pelo simples fato de andar errante, de coração aberto para o que aquela cidade iria me contar. Sim, cidades são pessoas, corpos percorridos por amantes inquietos, que se permitem a experiência de caminhar e ser afetado.
Minhas manhãs eram sempre invocadas. A sensação que eu tinha, quando acordava, era que a cidade permanecia em sentinela nas minhas horas de sono. O sol batia forte na minha janela, e era como um convite de quem feliz estava pela presença do forasteiro. Só naquelas manhãs entendia o porquê dos girassóis tão alegrinhos na entrada da cidade, nos arredores e quintais das casas. Isso mesmo, descobri em poucos dias que Zoé era repleta de girassóis. Decidi em duas semanas que queria morar lá, ter filhos e construir minha vida longe de toda tristeza que o passado já tinha me revelado. Já estava decidido, minha casa teria girassóis no quintal, bolo e café na cozinha. Na sala uma pintura que fiz em uma oficina de aquarela.
A feira de Zoé era repleta de coisas incríveis. Claro que me engracei logo pelo bolo de chocolate no pote, vendido por uma daquelas senhoras que se dedicava intensivamente a gastronomia. As barracas da feira sempre eram coloridas, mas a cor amarela predominava nos extremos. Seria aquela cidade, em seu formato no mapa, um lindo Girassol? Não tenho dúvidas de que pelo menos fortes semelhanças teria com essa flor tão intrigante.
A cidade tinha um cheiro que impregnava em meu corpo e minhas roupas. Era um cheiro que memorava tudo de bom que vivi em Zoé em fão pouco tempo que estava instalado por lá. Lembro que semanas antes de descobrir a cidade que tanto me encantava, sonhei que atravessava um rio de barco, acompanhado por alguém que remava, chegava a uma ilha, com casas simples. Uma mulher com um recipiente nas mãos vinha em minha direção e se apresentava, seu rosto não se revelava, nas mãos tinha uma espada. Aos arredores cavalos brancos se esbanjavam no verde beira-rio. Esses sonhos parecem sempre ser percepções do que sucederá, e de fato foi, ou talvez eu simplesmente tenha interpretado dessa maneira.